A2S – Ser Saloio

Ser Saloio no século XXI

Dos termos da Cidade aos lugares dos Saloios ainda hoje assim chamados, é ter presente uma paisagem cultural, social e económica que percorre milhares de quilómetros de afinidades.

O Património é a chave que nos abre a porta.

A principal zona saloia partilha uma ocupação de territórios que se estende de Loures a Mafra e Sintra (territórios rurais da região norte da Área Metropolitana de Lisboa) e outras franjas que bordam estes longos caminhos de trabalho mais agrícola, mais terra e água. Mais natureza.

Engenhos para erguer águas, picotas, azenhas, almoinhas tratadas com regos, qual geometria de campos, moinhos com velas que parecem barcos à bolina no alto destes montes mores que se unem procurando sempre mais azul, como o Poeta.

Telhados baixos, casas de alfaias, e de animais, forno para assados e pão. Em feiras e romarias sempre se saboreou o doce , bolos fofos, pão doce, queijadas, fatias paridas, arroz doce e aletria: quotidianos (duros) de sardinha assada com pão, fritos de bacalhau, pataniscas, as azeitonas, o pão saloio de Mafra, o azeite generoso, as alfaces dos alfacinhas e dos grelos com azedas– ai tantos impostos para se poder comerciar na capital!

E no meio das trouxas de roupa e das incontornáveis lavadeiras, património identitário dos Saloios (merecedor de ser Património de Humanidade) metem-se os pés e as mãos, as enxadas para abrir regos, no Trancão que parte da Póvoa da Galega, atravessa Milharado e chega a Loures, correndo por Bucelas, torneando Frielas, Unhos e chega até ao Tejo, já cansado.

Mas também no Safarujo que vem da Malveira, banha Ribamar e se espraia no Atlântico e o Rio de Mouro, o rio de Colares que desagua nas Maçãs, com águas do Almagre, de Nafarros e do Mucifal, da Mata, da Urca e de Janas.

E a completar esta terra generosa, as frutas, o gado, as ovelhas, as cabras, as vacas leiteiras e os belos queijos frescos ou curados!

– Esta gente de trabalho, mourejando pela vida. Tantas carroças a chiar, pouco barulho…

É com este conjunto base que imaterialmente se consolida a música, a dança, tradições que sobrevivem na cozinha com a sopa de beldroegas, da sopa rica de cebola, das sardinhas saloias (não as de Lisboa!), do bacalhau às queijadas e cabritos à moda da minha avó.

E bom vinho! Sempre bom vinho. Abençoadas encostas que criam terroirs de fama!

Sempre bom pão, água fresca, pão e música que isto de viver sem ela, não. E dançar, pois, namorar e comemorar, festejar! Muitos ranchos e bandas!

Muito trabalho. Artesanatos de empalhamentos, cestarias, barros; rezas e tratamento de doenças, que ainda as há, ajudas e solidariedades: com esta argamassa se construiu ser Saloio ao longo da história.

Vamos ao início, à palavra: Çahruiu/Çahroi, Çalayo, saloio, é termo de origem árabe, aponta para a terra, gente de fora da cidade. De Lisboa.

Os contextos alteraram-se, pois. A vida não se quer imóvel.

Hoje, há uma nova abordagem da espacialidade, sustentada pelo relevo posto nos valores culturais.

O lugar que antes era preservado e em que existia uma ligação mais afetiva, agora é consumido, com as suas especificidades intrínsecas de bem ou património natural, cultural ou turismo.

Os Saloios do século XXI serão necessariamente diferentes, mas é pela mudança que também se mantém o essencial diferenciador da tradição. Redefinindo a importância e aproveitamento das diferenças em termos de oferta socioeconómica e turística – as particularidades endógenas são únicas e não reproduzíveis – aqui estamos sempre, nós, os Saloios.

O mundo peregrina em busca de algo único, de experiência e de sentidos: temos algo que evoca a diferença mesmo ao pé da capital.

Ser Saloio no século XXI é saber de onde se veio, por onde se caminhou e porque estamos aqui com o nosso lugar e espaço.

Uma identidade, uma diferença, uma marca, sem dúvida.

Somos saloios e gostamos de ser, sim senhor!

-Tem dúvidas? Venha até nós e junte-se à Amália Rodrigues: “já me mandaram cantar…o bailarico saloio…”.

 

Ana Paula de Sousa Assunção

Doutoranda da Universidade de Lisboa
Mestre em História Regional e Local, FLL, Historiadora e Museóloga
Investigadora do CLEPUL/FCT